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segunda-feira, 20 de abril de 2009

O jazz do além-mar

Brasil não é só Samba e Portugal não é só Fado. Do outro lado do atlântico aquele que é considerado o nosso país irmão em termos de língua portuguesa, há muitos anos mantém uma conexão ativa com o jazz e continua ainda hoje a reunir esforços para garantir presença no circuito europeu.
Mas o beat americano em Portugal não chegou por acaso. Em 1971 Quando Miles Davis pisou pela primeira vez em terras lusas para tocar no Cascais festival, ele veio pelo intermédio de Luís Villas-Boas, figura chave na propagação do jazz neste país. Foi ele que abriu portas à imigração do jazz, primeiro através do programa "Hot Clube" estreado em 1945 e trasmitido pela emissora Rádio Clube Português e depois através de concertos e festivais que realizou, sendo o mais promissor deles o festival de Cascais estreiado nos anos 70, resultado de uma parceria com o produtor musical do Jazz Newport na época George Wein.
No rádio Villas-Boas costumava não só apresentar uma seleção musical apurada. Dedicava-se também a educar jazzísticamente o ouvinte, onde explicava, por exemplo, o que era o boogie-woogie e o jazz-samba. Enquanto escritor procurava desmitificar o racismo de alguns portugueses que costumavam desvalorizar o jazz e associà-lo a música de "pretos"*.
Desde 1945 quando se ouviu falar no primeiro programa jazz em Portugal até o ano de sua morte em 1999 foram mais de 50 anos dedicados a este estilo. No decorrer deste percurso Villas-Boas encontrou outros parceiros que merecem ser mencionados: João Braga, Hugo Lourenço e Duarte Mendonça. Este último trouxe para Portugal mais de 1000 músicos de jazz ao longo dos festivais Cascais Jazz, Galp Jazz e selou a iniciativa do Projazz.
Hoje quem visita Portugal, em especial Lisboa, nota que o circuito atual do jazz passa muito pelas contribuições deixadas por Villas-Boas. O "Hot Clube" primeira casa de jazz sediada na capital, que completa este ano o sexagésimo primeiro aniversário, já foi palco para muitos músicos europeus tocarem. Além disso mantém a Escola de música por onde passaram nomes do jazz português, a exemplo de André Sousa Machado, Bernardo Moreira, Carlos Martins, Filipe Melo, Laurent Filipe, Mário Laginha e Maria João.
Quanto aos festivais, Portugal está bem servido. Praticamente existem festivais nos principais estados como Braga, Guimarães e alguns de nomes como o Xôpana Jazz, Estoril Jazz, Angra Jazz, Jazz em Agosto este sediado em Lisboa. Para além do festivais a gravadora Clean Feed, a revista Jazz.pt, blogs e sites complementam o universo luso jazzístico.
Mas o beat americano nas terras de Dom Pedro I e Marquês de Pombal divide opiniões quando o assunto é definir uma identidade para o jazz português. No caso do Brasil, quando se fala em jazz há uma associação nítida por parte dos músicos e também dos críticos em mencionar a Bossa Nova, Música Instrumental e Ritmos Regionais. Em Portugal, os músicos de jazz tendem a buscar suas identidades individuais e coletivas, no entanto, muitas vezes chegam a ficar enclausurados em si próprios.

Por outro lado, sendo Portugal um país de imigração e emigração contínua, esse mesmo fluxo antropológico também ocorre no jazz. Há muitos músicos portugueses que vão encontrar o jazz no "gumbo" americano e muitos músicos americanos e europeus que vão para Portugal trocar experiências. Nesse sentido, a discussão em torno do jazz tocado em Portugal passa pelo intercâmbio cultural, fluxos e influxos onde a caracterização da identidade tende a ficar mais longe, o que não significa menos original.
* Do livro "O Jazz Segundo Villas-Boas" de João Moreira dos Santos.

Um comentário:

Afluentes Do Silêncio disse...

Muito objectivo e verdadeiramente factual a sua descrição sobre o panorama do jazz em Portugal. Sou portugu~es, vivo em Portugal e fico muito contente por saber que alguém no Brasil está bem informado sobre o cena jazzística em Portugal e, para além de tudo isso, ainda faz uma excelente divulgação deste género supremo musical que é o jazz. Bem haja! Saudações Lusas!!!